O samba e o futebol possuem mais coisa em comum do que se pensa. Há entre ambos uma ligação profunda, que vai muito além da imagem do Ronaldinho Gaúcho no ônibus da seleção brasileira de 2002 cantando "deixa a vida me levar". O conhecido jargão de que "samba e futebol são as duas paixões do brasileiro" fazia muito sentido até bem pouco tempo atrás, quando andavam lado a lado. O samba: uma expressão da cultura popular que carregava a bandeira da música nacional. O futebol: a paixão, "o" esporte, o orgulho. O jogo tão presente nos bairros cariocas quanto às rodas de samba. Em cada esquina havia um bar com um grupo batucando, cantando em coro, levando um samba. Nos campinhos a fora, umas "peladas” acontecendo. Lances geniais condenados ao desconhecimento, e seus autores ao anonimato. Sambistas afinados e criativos que jamais seriam ouvidos.
No tempo em que de fato eram paixões nacionais, samba e futebol eram feitos por amor. E quando dominamos algo que amamos fazer, nosso único intuito passa a ser aperfeiçoar tal ofício. Era assim no samba. Rimas inteligentes, letras elaboradas, melodias tocantes. Compositores que escreviam com a alma na ponta do lápis, e importavam-se mais em gerar uma obra de qualidade do que em serem reconhecidos. Àquele samba levava consigo a arte do improviso. Causava surpresa e encanto. Da mesma forma que o bom e antigo futebol, onde a bola era um pincel que desenhava belíssimos quadros quando guiada pelos pés de gênios.
Os mais antigos e os que se informam sobre a história do samba costumam afirmar que nos dias de hoje há gente que acha que escreve samba. A música virou mais um dos tantos mercados que se tem por aí. O padrão atualmente adotado por supostos sambistas parece ser o de letras simples, genéricas e que tratem de relacionamento. A essência do verdadeiro samba foi perdida. A intenção dos "artistas" é apenas vender.
O futebol também virou um mercado. Outro costume popular que se transformou num gigantesco movimentador de capital. A falta de criatividade e de ousadia, que eram características constantes na forma brasileira de jogar, simbolizou a seleção de 2010. Optar por um futebol defensivo e covarde resultou num time sem a cara de brasil. Uma equipe que "não deu samba". Esqueceram o gingado, o improviso, a alegria, o drible desconcertante. Enfim, faltou samba ao nosso futebol. Que na copa de 2014 alguns valores sejam resgatados e a seleção brasileira volte a ter cara de Brasil.Até lá nos resta recordar o tempo em que samba e futebol nos orgulhavam.